Quando jovem, era um prodígio entre perdedores. Superior em todos os sentidos, exceto no genético. Afirmar isso seria dizer que existem pessoas com genes inferiores. O que é uma verdade, mas proibida.
Sentimentos eram tangíveis e coloridos. A alvura da raiva estava em contraste com o vermelho do meu rosto, sendo esta última a cor da ansiedade e do amor por outra pessoa. Já o amor próprio era o céu. Em cor e extensão.
Falando em céu, lembro que as estrelas eram sóis, mas que se recusavam a afundar na noite. As nuvens, projeções de um futuro triste. As pessoas que observavam a este espetáculo sem notar a sua magnitude, eram meros objetos.
Então minha juventude me abandonou. Fui um inútil entre mentes e físicos ascendentes. Inferior no que se podia comparar.
Eu sabia as que emoções eram resultantes de reações químicas, desencadeadas por estímulos quaisquer. Não podiam ter cores. O amor era uma questão de culto à própria imagem. As estrelas eram sóis, de fato. E as pessoas eram mesmo objetos.
Percebendo que os presságios das nuvens eram verdadeiros, decidi mudar. Envelheci mais um ano e fiz 18. Voltei a ver cores nos sentimentos. Voltei a amar aos outros, porque mesmo o amor egoísta é gentil e protetor.
Bom, as estrelas são sóis, mas em cantos distantes. As pessoas são mesmo objetos e não há o que adicionar a isto.
Lembranças de uma memorável virada de ano em presença de três pessoas ilustres, sendo duas detentoras de meu afeto egoísta. E claro, de diversas discussões sem pé nem cabeça, mas que não poderiam ter chegado a conclusões mais elusivas.
Puta merda. O fim de ano já está aí. E hoje tive a infelicidade de ouvir uma música natalina, que, conseqüentemente, lembrou-me das festividades de fim de ano... Ah, que broxante. Acabou comigo. E com a minha pequena esperança de algo melhor e de felicidade próxima. Por quê? Porque todo fim de ano é a mesma coisa.
É mesmo foda. Começa pelo Natal, que é aquela coisinha chata em que todos insistem em falar em como a data perdeu sua real significação. Porra, como eu posso esquecer de que o Natal é o dia dos presentes, e do velho pedófilo, se ficam me lembrando disso a cada ano?
Mas a virada de ano é o disparo à queima roupa... Ainda mais agora, que ela parece uma noite qualquer. Qualquer não digo, mas vazia, uma noitada irrelevante. Tem aquela sensação de que mais um lote de amizades venceu. Mais um ano inteiro até o próximo marco da auto-avaliação de incapacidades.
Mas o pior do dia 31 do doze, ou 1 do um, é a sensação de que alguém está vivendo a sua vida. A minha vida. A sensação de que... eu, não sou importante, nem pra mim, nem pra ninguém em especial. Mais um ano, e eu não fiz nada.
E ainda prevejo muitos acontecimentos ruins daqui até lá, logo estará tudo muito pior do que imagino, pra variar.
Mal espero. E posso esperar mal, mas prefiro evitar isso agora.
O concreto, o aço, e um pouco de matéria orgânica. Sim, as cidades. Da última vez que fui a uma, quase não pude escapar das garras institucionais... “Jesus te ama” (cristãos invasores!), diziam eles, “você está preso!”, e até “vamos, coma e durma no abrigo”. Ora, eu corri, corri e andei quando cansei... Esses mortos não sabem que morreram!
Eles acham que me enganam! E me assustam, caro senhor W, pois não aceitam minha felicidade anormal aqui, no meio do nada. Mas este é o nada mais completo que se possa imaginar! As pessoas sempre estão fazendo nada, não é mesmo?!
Mas não é sobre as cidades ou o nada que gostaria de tratar com o senhor, estimado W. Gostaria de lembrar-lhe de nosso antigo amigo, o senhor S, que há muito cometeu suicídio. Talvez não saiba, mas ele cometeu...
Pois bem, deixe-me iniciar. Em 1984, o senhor W. começou a escrever um artigo sobre a insanidade. Na ocasião, eu trabalhava como seu assistente, sendo responsabilidade minha a nossa temporada no hospital de enfermidades psicológicas soviético. O local era imponente, se tratava de uma antiga fortaleza czariana, que defendia São Petersburgo. Depois do acelerado processo de urbanização que se passou durante nossa infância, o forte foi obsorvido pela cidade, sendo que minha casa ficava a alguns minutos de lá. Mas disso o senhor deve lembrar, não?
Bom, o fato é que S observava os enfermos durante longas horas, e chegava a travar diálogos com os pobres diabos. Sua intenção, segundo me disse, era decifrar a lógica daqueles ex-combatentes desequilibrados. Não tardou até que alcançasse os primeiros progressos... Gostava, sobretudo, dos homens que voltavam da África. O clima de lá, como o senhor deve saber, era, e é, muito desagradável para nós, filhos da tundra. Somado isso ao medo de um ataque capitalista e à distância da Pátria, os homens eram, deveras, muito desequilibrados lá.
Muitas semanas passadas desde o início de seus estudos, o senhor S começou a perguntar-me sobre patologias psicológicas. Respondi que não me interessava por tal assunto, e que mesmo que tivesse alguma tese sobre o assunto, elas seriam muita vazias. Nesta ocasião percebi o quanto havia mudado seu olhar e suas atitudes. Ele estava taciturno e esquivo...
Espero que não se incomode com a efêmera narração, senhor W. Eu tentei não me incomodar, mas um ano inteiro se passará desde os parágrafos anteriores ao que ainda virá. Não faço isso por mal, ainda que o faça calculadamente.
Bem, o senhor S passou de estudioso à interno... Fui visitá-lo certo dia, e enquanto esperava que chegasse, fiquei em seu alojamento. Passei os olhos pelo lugar, que estava muito limpo. Acabei percebendo o antigo caderno de anotações de S, e decidi lê-lo; as anotações não podiam ser chamadas de antigas, de fato. Ele continuou a escrever seu artigo, que embora tivesse o mesmo assunto, mudou completamente de foco: os loucos eram os "externos", como eles nos chamou. Eram dezenas e dezenas de páginas com insanidades desmedidas e relatos assustadores. Dentre seus desvairamentos, estava o de que eu era um psicopata.
Ora veja! Eu? Não. Se matei foi por gosto e prazer, e não por descontrole ou insconsciência de meus crimes. Que graça teria se eu não sentisse que era errado?! Mas não pretendo agastar seus velhos olhos com uma longa carta. Deixarei o relato de meus assassínios prediletos à outras epístolas. Voltemos ao suícidio...
Descobri que o senhor S não estava louco, e que usou aquela velha fortaleza como os soldados sãos faziam antigamente. Usou-a para defender-se. De mim. Que insulto! Mas fui notado dentro do dormitório do senhor S. Aparentemente ele havia recrutado aqueles soldados birutas. Levei alguns socos e pontapés, mas consegui fugir e manter meu penteado e ternos alinhados.
Creio que ele não pretendia me denunciar. Mesmo porque, para saber tanto, ele já estava a me estudar durante longo tempo. Mas eu não podia arriscar. Invadi o forte na mesma noite...
Com dinheiro, o mundo socialista estava aos meus pés. Contratei alguns soldados e marchei em direção ao nosso amigo. Arrebentei o enferrujado portão e adentrei o forte sem dificuldades. Ampunhando um Kalashnikov, me diverti com quem atravessou meu caminho. Os soldados, cristãos estúpidos, se detiveram à porta.
Muitos passos, muito sangue, muitos gritos e alguns cartuchos depois, cheguei até o senhor S. Não podia matá-lo com uma arma. Não, eu não. O levei para a torre leste, com muito desgosto, pois ele estava a tremer, chorar e urinar em suas próprias calças. Calças alvas! No topo da torre, travei com ele um longo diálogo. Quase me arrependi de meus atos...
Quase, porque não tive chance de o fazer: sentado no parapeito, eu é que chorava. Sentia por ter que matá-lo. Matar meu amigo de infância. Pisquei, e senti um vento frio baster em minhas costas. Abri os olhos e vi a Lua. Cai. Cai não, fui empurrado...
Meu corpo... Corpo?! Não havia corpo. Eu senti ódio. Muito profundo por sinal... Mas o senhor deve estar se perguntando, "mas e o suicídio?" Este foi suicídio! Estou tramando a morte dele desde então. Ainda não a consumei, mas é apenas uma questão de tempo!
Gostaria apenas que o senhor soubesse: há morte após a morte, e aqueles que falam em Alá são os que devem ser ouvidos.